Dor crônica: um problema que vai além das limitações físicas

A saúde psicológica daqueles que sofrem de dor crônica é frequentemente afetada pela presença constante e duradoura da sensação dolorosa, levando a quadros de depressão em inúmeros pacientes.

Uma pesquisa recente feita pela Sociedade Brasileira de Estudos da Dor (SBED) aponta que pelo menos 37% da população brasileira, ou 60 milhões de pessoas, relatam sentir dor de forma crônica. Caracterizada por ter duração prolongada, que pode se estender de vários meses até anos, a dor crônica prejudica de forma significativa a qualidade de vida dos que dela sofrem. E esse comprometimento vai além da perda de mobilidade, redução das atividades de lazer ou demais questões físicas, afetando também o bem-estar mental.


De acordo com o psiquiatra Fábio Aurélio Costa Leite, “a dor é um mecanismo de defesa natural contra agressões externas. Porém, quando se cronifica, faz com que o cérebro funcione de forma alterada e disfuncional em vários aspectos”. O primeiro aspecto diz respeito ao próprio aparecimento da doença chamada dor crônica que, mesmo desaparecendo o fator doloroso inicial, o indivíduo permanece com uma sensibilidade aumentada para a dor. “Instala-se uma disfunção na forma de sentir do paciente”, afirma Dr. Fábio.


Outros sintomas que se apresentam no quadro de dor crônica, como diminuição das atividades laborais, sociais e de lazer, alterações no sono, sentimento de incapacidade, pessimismo e isolamento, por sua vez, contribuem para o aparecimento da depressão. Além disso, explica Dr. Fábio, “no cérebro as regiões de processamento da dor física e da dor emocional (componente importante da depressão) são vizinhas, localizadas no giro do cíngulo”.


Por outro lado, a depressão baixa o limiar de dor do paciente, fazendo com que fique propenso a sentir dor com estímulos pequenos ou, até mesmo, surja um quadro de somatização da dor. “Assim, dor crônica e depressão sempre andam juntas em uma via de mão dupla”, destaca o psiquiatra.


Estudo com pacientes oncológicosA pesquisa Dor crônica e depressão: estudo em 92 doentes, realizada pela enfermeira e professora da USP Cibele Andrucioli de Mattos Pimenta, tratou de analisar a existência de relações entre dor e depressão em pessoas com doença oncológica avançada. Os doentes foram divididos em 2 grupos, com ou sem dor na semana anterior à entrevista.

Concluiu-se, então, que os indivíduos do grupo com dor apresentaram níveis de depressão significativamente mais altos que os do grupo sem dor. Já os doentes com mais altos níveis de depressão experienciaram dor de maior intensidade. Assim, sintomas depressivos associaram-se e agravaram a experiência dolorosa.


“Todos os profissionais que atuam junto a doentes com dor crônica em geral e, em especial, junto a doentes oncológicos, devem estar alertas para a identificação da presença de depressão. Dor e depressão frequentemente coexistem e uma agrava a outra. Enfermos com dor e deprimidos apresentam prejuízos para a vida diária de magnitude superior àqueles que, embora com dor, não apresentam depressão. A identificação precoce e o tratamento adequado desses agravos contribuem para a melhora da qualidade de vida dos doentes”, finalizou o estudo.


Tratamento

Para o psiquiatra Fábio Aurélio Costa Leite, o sucesso no tratamento requer profissionais com uma formação específica em dor, tanto no campo da psiquiatria quanto nas demais áreas médicas. Conhecer bem o processo depressivo e doloroso é importante para um bom manejo do quadro.

E ele garante: “Um dos pontos fundamentais é a disseminação desses conhecimentos no campo profissional e entre os leigos, para que as pessoas procurem tratamento e possam ter alivio dos sofrimentos físicos e emocionais”.


Responsável técnica: Dra. Rebeca G. de Lacerda Vasconcelos CRM 18290 DF