A síndrome invisível

Apesar de não ser visível aos olhos e nem mesmo aos mais modernos exames, a fibromialgia causa dores crônicas por todo o corpo do paciente e gera inúmeros problemas incapacitantes. Mas o diagnóstico correto e um tratamento multidisciplinar são as chaves para manter a qualidade de vida.

Uma doença que não apresenta lesão, inflamação ou degeneração dos tecidos. Não

existe um exame específico que possa diagnosticá-la. Também não se sabe o que causa

e ainda não há cura para ela. Assim é a fibromialgia, mal que atinge cerca de 7% a 9%

da população mundial, especialmente as mulheres na faixa dos 35 aos 50 anos.

De acordo com a Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED), “a fibromialgia é uma

síndrome comum em que a pessoa sente dores por todo o corpo durante longos períodos, com sensibilidade nas articulações, nos músculos, tendões e em outros

tecidos moles”. Algumas vezes a dor predomina em uma região específica, mas as

pessoas que sofrem de fibromialgia costumam sentir dor em diversas partes do corpo.

Essas dores permanecem por mais de três meses.

Existem 18 pontos fundamentais onde a dor pode se instalar, entre eles estão os

cotovelos, glúteos, joelhos, músculo trapézio, vértebras cervicais e região atrás da

cabeça. Alguns especialistas defendem que, havendo de nove a 11 pontos dolorosos

no exame clínico, a doença está caracterizada.

Contudo, os sintomas da fibromialgia vão além das dores crônicas. Existem outros

fatores incapacitantes ligados a esta síndrome, como fadiga, dores de cabeça e

enxaqueca, distúrbios do sono, depressão, ansiedade e, até mesmo, diferenças na

atividade cerebral se comparados com aqueles que não apresentam a doença.


Sensibilidade à dor

As causas da fibromialgia ainda não são conhecidas. Porém, sabe-se que o sistema

supressor da dor, que coordena a relação entre dor e analgesia, não funciona direito

nas pessoas que sofrem dessa síndrome. Acredita-se que a fibromialgia desencadeia

algo chamado “sensibilização central”, o que significa que o corpo começa a ficar

sensível em excesso e a reagir a coisas que em geral não machucam.

Em síntese, os pacientes que sofrem de fibromialgia têm uma alteração na percepção

da dor. No caso das mulheres, que representam 90% dos casos da doença, a maior

sensibilidade a dor pode ainda estar relacionada a questões hormonais. Durante a

tensão pré-menstrual, por exemplo, tudo fica mais sensível na mulher.

Para a médica fisiatra Dra. Lin Tchie Yeng, várias são as razões para as mulheres representarem a maior parte dos casos de fibromialgia. “O sistema nervoso das

mulheres produz menos serotonina e por isso elas também estão mais propensas à

depressão. Outro fator repousa na dupla jornada de trabalho feminina. Hoje, as

mulheres trabalham fora, mas continuam responsáveis pela execução de tarefas dentro de casa. Sobrecarregadas, pouco tempo lhes sobra para o repouso, o que

facilita a incidência maior de dor pelo corpo. Cefaleia e dor nas costas, assim como as

manifestações psicossomáticas, também são mais comuns entre as mulheres. Todos

esses fatores somados justificam a maior incidência de fibromialgia entre elas”, aponta.


Convivendo com a fibromialgia

Apesar de não haver cura para a doença, um diagnóstico correto irá ajudar na

definição do tratamento adequado e consequente alívio dos sintomas. Atualmente,

muitas pessoas com fibromialgia são capazes de reduzir seus sintomas por meio de um

tratamento multidisciplinar e mudanças no estilo de vida, garantindo o bem-estar e a

manutenção da qualidade de vida.

O tratamento padrão é feito a partir da prática de atividade física, anti-inflamatórios,

analgésicos e terapia psicológica, já que os pacientes costumam apresentar um

cansaço extremo, dificuldade para se concentrar, tonturas e quadros de depressão e

ansiedade.

Segundo recomendações da Liga Europeia Contra o Reumatismo (EULAR), publicadas

no “Annals of Rheumatologic Diseases”, deve-se destacar o exercício físico e

outras terapias não farmacológicas como a acupuntura no tratamento dos pacientes

com fibromialgia. Esta diretriz aponta para a necessidade de uma terapia

individualizada focada no indivíduo, além da importância do tratamento inicial sem o

uso de medicamentos.

O exercício foi fortemente recomendado por seu efeito sobre a dor, a função física, o

bem-estar e a ampla disponibilidade. Entre as atividades indicadas estão as de

condicionamento aeróbico (caminhada, corrida, ciclismo, natação) ou de

fortalecimento. Recomendações positivas ainda foram dadas para acupuntura,

meditação e terapias como yoga ou hidroterapia. Existem evidências de estudos

controlados que estas terapias ajudam com o alívio da dor e melhora da fadiga, do

sono e na execução das atividades diárias das pessoas com fibromialgia.

Responsável técnica: Dra. Rebeca G. de Lacerda Vasconcelos CRM 18290 DF